segunda-feira, 1 de junho de 2020

Alterações mamárias na adolescência

Durante a puberdade, o crescimento e as alterações corporais, principalmente as alterações mamárias, podem causar-te dúvidas e preocupações.   

Do nascimento à vida adulta, as mamas desenvolvem-se, passando por vários estágios até atingir o formato e volume definitivos. Durante a infância, as mamas praticamente não contêm tecido glandular e os mamilos são praticamente lisos, depois no inicio da puberdade formam-se os "botões mamários", as mamas elevam-se ligeiramente e os mamilos começam a ganhar pigmentação e aumentam de diâmetro. O “botão mamário” aparece em média aos 10 anos de idade e forma-se quase sempre primeiro numa mama e, pouco depois, na outra, em algumas adolescentes o início do desenvolvimento mamário pode iniciar-se mais tardiamente sem que isso seja considerado anormal.  

Mais tarde, por volta dos 11 anos, começam a produzir-se as alterações mais marcadas, que fazem com que as mamas cresçam e se tornem mais proeminentes e as aréolas mais lisas e rosadas, destacando-se ainda mais em relação ao resto da superfície mamária. As mamas em adultas adquirem um volume ainda maior e adotam uma forma esférica típica. O crescimento da mama feminina é diferente em cada mulher. 

O desenvolvimento mamário, cuja duração é normalmente de cinco a nove anos, pode ver-se afetado por diversas alterações. O tecido mamário responde aos estímulos hormonais, mas ás vezes essa resposta não é adequada. A patologia mamária na adolescência é habitualmente benigna, englobando alterações do desenvolvimento, nódulos mamários e/ou corrimentos mamilares.  

Explicamos-te algumas das alterações mais frequentes:  

  • Dor mamária: é a mais frequente das alterações mamárias, decorre de estímulos hormonais e por isso é comum o seu aparecimento antes do período menstrual 

  • Assimetria mamária: embora pareça estranho, não é preocupante, ocorre em muitas adolescentes e na maioria das vezes ocorre a simetria no final da puberdade 

  • Hipertrofia mamária: corresponde ao excesso de volume das mamas e pode causar desconforto com repercussão postural causando dor mamária e dores nas costas  

  • Hipotrofia mamária: corresponde ao volume das mamas medicamente considerado pequeno. Normalmente, pelo facto da mama ser pequena, não deixa de desempenhar corretamente o seu papel.  

  • Nódulos mamários:  os fibroadenomas são os mais frequentes, correspondem a um nódulo que aparece geralmente entre 15 e 25 anos de idade, é duro, móvel, único, não doloroso e bem delimitado, como se fosse uma "bolinha " dentro da mama. Estes nódulos têm na maioria dos casos indicação para vigilância médica, pois não são mais que o reflexo das oscilações hormonais nessa idade.  

A elaboração da imagem corporal e a satisfação com o corpo sofrem várias influências: da família, dos grupos de amigos, da publicidade, dos media e da sociedade em geral. 

Reconhecer a diversidade de características das mamas é essencial para perceberes que o que torna uma mama atraente é muito mais subjetivo.  

Adolescência é passar por grandes transformações físicas, emocionais e sociais, é NORMAL ter duvidas e preocupações.  


Dra. Mariana Sucena
Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

sexta-feira, 1 de maio de 2020

E quando me falha a menstruação?


A menstruação pode falhar ou atrasar-se por vários motivos.

O mais falado é a gravidez. Mas uma menstruação irregular pode também ser causada por desequilíbrios hormonais ou por doenças por vezes graves.

Há duas alturas da vida de todas as mulheres em que é perfeitamente normal e muito comum o período ser irregular e falhar frequentemente – a adolescência e o final da vida reprodutiva. Nestas alturas da vida, o período falha muitas vezes sem que isto signifique que tenhas um problema sério ou que estejas grávida.

Habitualmente os ciclos menstruais duram 28 dias (desde o primeiro dia do período até ao primeiro dia do período seguinte). Mas muitas mulheres têm ciclos menstruais mais curtos ou mais longos (de 21 a 35 dias ainda se considera normal, desde que regulares).

Se os teus períodos falham regularmente, pode ser por stress, exercício físico excessivo, baixo peso, obesidade, síndrome dos ovários poliquísticos, toma de anticoncepcionais ou por doenças crónicas (exemplo: diabetes, doenças da tiróide).

Gravidez
Se o teu período estiver atrasado e se tiveste relações sexuais sem utilizares adequadamente um método contraceptivo, é possível que estejas grávida. Podes facilmente excluir esta hipótese realizando um teste de gravidez que podes comprar numa farmácia.

Stress
O stress pode provocar ciclos menstruais mais longos ou mais curtos do que o habitual. Também é possível que, devido ao stress, não tenhas período durante vários meses. Ter uma vida mais calma e realizar exercício físico regularmente são medidas que podem ajudar a regularizar o teu ciclo menstrual.

Alterações do peso e exercício físico em excesso
Tanto o baixo peso como a obesidade podem causar alterações no teu ciclo menstrual. Um nutricionista pode ajudar a adquirires o teu peso ideal para que os teus ciclos menstruais regularizem. No caso de teres baixo peso por sofreres de um distúrbio alimentar (por exemplo, anorexia), podes precisar de ajuda de uma equipa especializada para recuperares o teu peso. O exercício físico em excesso também pode fazer com que deixes de ter o período de forma regular. Reduzindo a intensidade do exercício podes voltar a ter o período regularmente.

Métodos contraceptivos
Alguns métodos contraceptivos provocam irregularidades no ciclo menstrual que não te devem preocupar. O dispositivo intra-uterino de levonogestrel e o implante subcutâneo de etonogestrel são alguns destes métodos.

Síndrome do ovário poliquístico
Esta doença metabólica é muito frequente e dificulta a ovulação. Os ovários poliquísticos produzem muitos folículos mas não libertam óvulos todos os meses. Sem ovular, as menstruações tornam-se irregulares (habitualmente com ciclos longos), muitas vezes acompanhadas de dor pélvica e perda de sangue em mais quantidade do que o habitual.

Doenças crónicas
Doenças crónicas como a diabetes e doenças da tiróide podem causar períodos irregulares. Realizando tratamento para estas doenças podes voltar a ter o período todos os meses.

Pede ajuda ao teu Médico de Família para perceberes a causa dos teus períodos irregulares. Se necessário o teu Médico pode recomendar algum tipo de tratamento para te ajudar a teres um ciclo menstrual certo e previsível!

Dra. Joana Curado
Hospital Garcia de Orta

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Higiene íntima


A higiene íntima é muito importante para a mulher, de modo a manter os genitais limpos, livres de humidade e resíduos: como fezes, urina ou fluídos. É importante em termos de bem-estar, mas também porque contribui para a saúde física, prevenindo infeções.
Existem muito produtor de higiene íntima disponíveis no mercado, e neste post vamos falar do que é mais importante ter em conta na sua escolha, assim como quais as melhores técnicas de higienização da zona íntima.

Ambiente vaginal: como é e como funciona?
Na adolescência, a produção de estrogénio pelo ovário permite um ambiente ótimo para a fixação de lactobacilos na vagina, que ajudam o ambiente vaginal a tornar-se otimizado face às bactérias, que podem contudo ser normais na vagina e até mesmo ajudar no seu equilíbrio (depende do tipo de bactéria e da quantidade).  A partir desta fase, o ciclo menstrual vai ter implicações no ambiente vaginal. Por exemplo, durante a menstruação, o pH da vagina (que normalmente é ácido) vai tornar-se mais alcalino pela presença de sangue, facilitando o desenvolvimento de organismos na vagina que não deveriam existir, ou pelo menos existir naquela quantidade/ proporção.  
É normal haver corrimento vaginal na mulher, já que a produção deste muco possibilita a manutenção do pH vaginal nos valores corretos, funcionando como um mecanismo protetor às infeções indesejadas. É, no entanto, muito importante saber quais as características do corrimento que não nos deve preocupar: se ele for branco fluído ou transparente, sem cheiro e não causar comichão, não será para preocupar.

Detergentes de limpeza: como escolher?
Portanto, já percebemos que manter o pH da vagina ácido é importante e isto vai ser uma dica muito útil quando escolhemos os produtos para a nossa higiene íntima: devemos evitar produtos que alcalinizem o pH da região genital, e que portanto destruam um dos mecanismos protetores. O objetivo dos produtos de limpeza íntima não é esterilizar os genitais, mas sim conseguir eliminar os resíduos e secreções da região sem destruir as suas características e as próprias bactérias que vivem normalmente na vagina. É ainda importante que estes produtos não sejam irritantes nem sequem demasiado a pele e as mucosas.
Passar os genitais por água em primeiro lugar permite remover grande parte dos resíduos. De seguida devemos passar o detergente genital, capaz de remover as gorduras e partículas que ainda lá ficaram, como células mortas derivadas da descamação da pele, fezes, urina ou sangue menstrual. Muitas mulheres gostam que estes detergentes façam espuma, mas produtos com muita detergência podem remover excessivamente a camada de gordura da pele, tornando-a muito seca e facilitando a comichão.
Frequentemente as mulheres usam os comuns sabonetes orgânicos para higiene íntima, mas devemos ter atenção porque normalmente estes são alcalinos e tornam-se abrasivos, promovendo a secura da pele: por exemplo os sabonetes de glicerina ou sabão em barra. Se a mulher prefere ainda assim usar este tipo de sabonete na sua higiene, então deve associar agentes humidificantes como óleos vegetais ou ácidos gordos.
Os detergentes sintéticos já apresentam um pH neutro ou ligeiramente ácido, tendo a capacidade de fazer espuma com correto efeito detergente, podendo apresentar-se sob a forma líquida (a maioria) ou sólida. Existem detergentes sintéticos próprios para a higiene íntima, maioritariamente líquidos, que devem ser preferidos aquando da lavagem da zona genital, por apresentar as caraterísticas ótimas na manutenção da barreira de defesa íntima ao mesmo tempo que garante a sua lavagem.
O toalhete humedecido tem normalmente um pH ácido ou próximo do neutro, podendo ser uma opção para a higiene fora de casa (por exemplo em sanitários de uso público). Não devem, no entanto, ser usados de forma abusiva e a sua aplicação deve ser suave,

Como proceder à lavagem?
Devem ser lavados a vulva (zona exterior dos grandes e pequenos lábios que contém pele), o monte púbico (parte superior à vulva normalmente composto por pele e pêlos púbicos) região perianal e raiz das coxas, incluindo as dobras e sulcos cutâneos, como o sulco interlabial (entre os grandes e os pequenos lábios).
Primeiro devem ser enxaguados com água corrente e depois com o produto de higiene íntimo, em movimentos circulares evitando trazer conteúdo perianal para a região vulvar. De salientar que apenas deve ser lavada a genitália externa, não estando de algum modo aconselhados os duches vaginais. No final, os genitais devem ser secos com toalha lavada e seca, de forma suave.
Não devem ser utilizados sprays, perfumes, talcos, ou lenços humedecidos.  A região genital deve ser higienizada de 1 a 2 vezes por dia e não deve exceder 1-2 minutos, de forma a evitar a secagem excessiva. Em casos de pele seca, também a região genital pode ser hidratada no final do banho. Os hidratantes deverão ser gel ou cremes vaginais de base aquosa e com pH ácido e compatíveis com a mucosa vaginal.

Uso de penso diários: sim ou não?
O uso sistemático do penso higiénico diário não é recomendado. Caso haja incontinência urinária ou transpiração excessiva, pode recorrer-se a pensos higiénicos respiráveis (sem película plástica).

Roupa interior: qual a melhor?
No geral, deve utiliza-se roupa interior de algodão.  Deve trocar-se a roupa interior diariamente, não devendo esta ser demasiado apertada. Os fatos de banho molhados e a roupa usada após desporto devem ser trocados o mais cedo possível.


Higiene após relações sexuais: o que fazer?
Após a relação sexual, deve lavar-se a área genital externa com água e produto de higiene íntima. Mais uma vez, não são recomendados os duches vaginais.  

Higiene durante a menstruação: como fazer?
No período menstrual, a higiene deve ser feita com mais frequência, de forma a evitar a humidade prolongada. O uso de pensos higiénicos é possível, mas devem ser trocados com frequência, de forma a garantir a limpeza, mas também evitar a irritação vulvar. Os pensos higiénicos desodorizantes não devem ser utilizados. Os tampões podem ser utilizados com segurança, desde que mudados com frequência.

Depilação da área genital: pode ser?
A depilação da área genito-anal pode ser feita, mas deverá respeitar a sensibilidade individual de cada uma. A frequência deve ser a menor possível.

Tânia Ascensão
Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

quarta-feira, 4 de março de 2020

Autoerotismo


Já ouviste falar em autoerotismo? Se nunca ouviste falar, poderás estar neste momento a pensar que deve ser sinónimo de masturbação. Mas nem sempre é exatamente assim.

Então o que é o autoerotismo?

O autoerotismo pode ser definido como a gratificação ou prazer sexual que é obtido através da estimulação do próprio corpo ou da sua imagem ou identidade. Ele pode ser visto como o oposto do aloerotismo ou heteroerotismo, no qual a gratificação sexual é obtida através de outrem. 

Ou seja, no heteroerotismo, há procura de um/a parceiro/a ou de objetos externos para satisfazer o desejo ou líbido sexual, enquanto no autoerotismo é através do próprio corpo, imagem ou identidade que essa líbido é satisfeita, sendo que a excitação sexual ocorre sem que haja estimulação externa.

Existem, contudo, várias formas, graus e manifestações de autoerotismo. Quanto maior a capacidade autoerótica da pessoa, menos ela necessita de estimulação externa ou de fantasias sexuais com outrem para sentir gratificação sexual. Isto pode ter como consequência a capacidade de conhecer e explorar o seu próprio corpo através da autoestimulação erótica ou masturbação, levando a que a pessoa possa obter mais facilmente prazer sexual, sozinha ou com outrem. 

Através da masturbação a pessoa que a pratica ganha um maior conhecimento e consciência do corpo sexuado e das suas zonas erógenas, bem como aprende quais as práticas sexuais que são para si mais prazerosas. E com isso torna-se também mais fácil comunicar a outrem isso mesmo, aumentando assim a probabilidade de ter relações sexuais mais satisfatórias, e prevenindo o aparecimento de dificuldades sexuais, que muitas vezes acontecem por haver desconhecimento do corpo sexuado e por haver dificuldades ou barreiras na comunicação sobre este tema. 

Contudo, masturbação e autoerotismo não são necessariamente a mesma coisa, na medida em que no autoerotismo pode haver masturbação, mas esta tem como foco o próprio corpo ou imagem, enquanto que pode haver masturbação com recurso a fantasias sexuais com outrem ou recorrendo a estímulos externos.

O autoerotismo tem vantagens ou desvantagens para a vida sexual?

A resposta certa é: depende. 

Quando serve para conhecer melhor o corpo sexuado e aprender a
comunicar melhor as preferências sexuais, o autoerotismo é benéfico e até pode ser favorecedor dos relacionamentos íntimos. Mas também poderá não o ser. É tudo uma questão de conta, peso e medida – como já te disse antes, há várias formas, graus e manifestações através dos quais o autoerotismo pode existir. 

Por exemplo, se o autoerotismo se manifesta enquanto orientação sexual (também referido por alguns autores de autossexualidade), nesse caso já não se pode afirmar que favoreça os relacionamentos íntimos ou sexuais com outrem, muito pelo contrário. E mesmo assim, não quer dizer que seja maléfico. 

Vejamos, tu sabes que há várias orientações sexuais, certo? Já lá vai o tempo em que se pensava que a única orientação sexual saudável era a heterossexual (atração afetiva e sexual por pessoas de outro sexo). Ah, já agora, a orientação sexual é a atracão emocional, romântica ou sexual que uma pessoa sente relativamente a outra pessoa, é algo que não se escolhe voluntariamente e resulta de uma diversidade complexa de fatores. 

Hoje em dia os sexólogos e psicólogos reconhecem que há uma grande amplitude de orientações sexuais. Digamos que umas são consideradas saudáveis, como é o caso das conhecidas heterossexualidade, homossexualidade e bissexualidade, e outras são consideradas parafilias. 

As parafilias são orientações sexuais caracterizadas por impulsos, fantasias ou comportamentos recorrentes e intensos que envolvem objetos, atividades ou situações não habituais (por exemplo, voyeurismo, fetichismo, etc.). Se para além disso provocarem sofrimento significativo (na própria pessoa parafilia ou em quem a parafilia atua – por exemplo, no caso da pedofilia, as crianças que
sejam abusadas sexualmente pela pessoa que sofre de pedofilia) ou dificuldade e/ou prejuízo no funcionamento social, ocupacional ou noutras áreas importantes da vida pessoa, então já não estamos só a falar em parafilias, mas sim em transtornos ou perturbações parafílicas, e nesse caso, são orientações sexuais não saudáveis.

Quando o autoerotismo se converte por si numa orientação sexual, ela pode ser predominante ou exclusiva. No caso de ser predominante, a pessoa sente-se sobretudo atraída pela sua imagem e corpo, preferindo as atividades sexuais que só a envolvem a si própria, mas consegue apaixonar-se e sentir-se atraída por outra pessoa. Se a pessoa for exclusivamente auto-sexual, isso já não acontece e pode dificultar ou mesmo incapacitar a pessoa para manter um relacionamento íntimo amoroso com outrem. O que, por si só, não é um problema, a menos que traga sofrimento significativo à pessoa e prejuízo no seu funcionamento em qualquer área da vida. 

Se isso acontecer, então o autoerotismo pode ser considerado um transtorno parafílico não especificado, conforme propõe, ainda que não se referindo ao autoerotismo (sabes que há imensas parafilias) a DSM-V, que é o manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais da APA (American Psychiatric Association).

E quando o autoerotismo passa a ser sinónimo de sofrimento e disfunção, então aí está na altura de procurar ajuda especializada, de um psicólogo ou sexólogo/terapeuta sexual. 

Enquanto o autoerotismo servir para conhecer o corpo sexuado e explorar o erotismo e prazer sexual, que seja muito bem-vindo!

Sónia Araújo
Psicóloga e Terapeuta Sexual
Fundadora M’BE - Mindful Butterfly Effect
www.mindfulbe.pt | sonia.araujo@mindfulbe.pt

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Gravidez na adolescência



A gravidez pode ser resultar de um planeamento ou de um imprevisto na vida de um casal. Seja como for, e apesar de ser ou não planeada, ela pode ser desejada. 

Para prevenir uma gravidez não planeada, existem métodos contracetivos seguros e eficazes sobre os quais temos vindo a falar no Blog. Mas e se a gravidez na adolescência se tornar real? O que deves saber?

É considerada uma gravidez na adolescência se esta acontecer entre os 11 e os 19 anos. 

Existem alguns fatores de risco para que uma gravidez não planeada ocorra nesta idade. Para além da ausência de contraceção eficaz, ou má utilização destes métodos, outros como desconhecimento da sexualidade, início precoce da atividade sexual, déficit mental grave, abuso sexual, abandono e/ou insucesso escolar, consumo de tabaco ou substâncias ilícitas ou baixo nível socioeconómico podem contribuir para o maior risco desta situação.

A gravidez deve ser seguida no Hospital com médicos obstetras e idealmente em consulta própria para vigilância da gravidez na adolescência, onde existe uma equipa multidisciplinar com vários profissionais de saúde que podem ajudar. 

Existem algumas situações de risco mais comuns de acontecer em grávidas adolescentes, como infeções genitais, carências nutricionais, anemia, aborto, parto antes do tempo, menor crescimento fetal ou complicações relacionadas com tensão alta na gravidez.

Durante o parto, existem também alguns riscos mais comuns, como a necessidade de parto instrumentado por ventosa ou fórceps, maior risco de sangramento, infeções ou depressão pós parto.

Um bebé de mãe adolescente também pode alguns problemas associados, como maior risco de morte nos primeiros dias de vida , maior probabilidade de doenças ou problemas futuros de comportamento.

É muito importante seguir a gravidez com cuidado e com a ajuda de médicos adequados. É importante saberes que podes confiar nos profissionais de saúde que existem tanto nas consultas de planeamento familiar como em contexto hospitalar. Todas as informações de caráter sexual e reprodutivo são segredo médico, em qualquer idade. A não ser que a revelação de segredo seja necessária para proteger uma rapariga menor, ou aqueles que com ela lidam, o médico não deve partilhar esta informação com os seus pais ou representantes legais.

Se uma gravidez acontecer na adolescência, nós enquanto profissionais de saúde estamos cá para te ajudar. Entretanto aposta na prevenção: utilizar adequadamente os métodos contracetivos ou em caso de necessidade a pílula do dia seguinte ou a interrupção voluntária da gravidez pode ser uma opção. 

Confia nos teus médicos. Informa-te e atualiza o teu conhecimento sobre saúde sexual e reprodutiva. 

Tânia Ascensão
Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Copo menstrual


Menstruar pode não ser cómodo, mas felizmente temos vários produtos que te auxiliam nestes dias. Se por um lado os pensos e tampões já são teus conhecidos há vários anos, recentemente surgiu uma alternativa mais ecológica e igualmente confortável para te ajudar: o copo menstrual.

Este é um dispositivo reutilizável que se coloca na vagina, de forma a poder recolher o sangue menstrual. Estes são feitos de silicone ou elastómero termoplástico, material semelhante aos biberões utilizados com crianças.
O copo menstrual apresenta diferentes tamanhos, permitindo uma melhor adaptação ao teu corpo. O tamanho mais adequado vai depender de alguns fatores, como o teu peso, altura ou antecedentes de parto vaginal. Em caso de dúvida, consultar o médico assistente poderá ser sempre uma boa opção.

Aquando da colocação do copo menstrual, deverás dobrá-lo contra os dedos de forma a introduzi-lo da forma mais confortável possível. Este gesto pode ser feito em qualquer posição, ainda que possa ser facilitado na posição sentada ou de cócoras. Uma vez dentro da vagina, podes largá-lo já que este irá tomar automaticamente a sua forma inicial, permitindo um efeito de vácuo que lhe confere estabilidade. Podes confirmar a sua correta colocação contornando com um dedo a borda do copo em volta das paredes vaginais.

Se o copo estiver devidamente colocado, não o vais sentir. Caso esteja a criar desconforto, experimenta realizar pequenos movimentos no copo com os dedos, de forma a encontrares a posição ideal. Se o tamanho do copo for o adequado e este estiver colocado de forma correta (contornar com um dedo a borda do copo como explicado anteriormente pode ser uma ajuda!), o conteúdo do copo muito dificilmente irá verter. É de facto um método seguro.

Durante o período menstrual, o copo vai recolhendo o sangue libertado para o seu reservatório. Para poderes removê-lo basta apertar o copo com dois dedos (segurar na haste existente na base do mesmo pode ajudar), e cuidadosamente puxá-lo para o exterior. É normal neste movimento existir algum contacto de sangue menstrual com as mãos, pelo que estar à vontade com o teu corpo é fundamental. 

De seguida, podes despejar o sangue na sanita, lavar o copo com água corrente e voltar a inseri-lo. Este deve ser esvaziado duas vezes por dia (de manhã e à noite por exemplo). No final e início de cada período menstrual, ele deve ser colocado em água a ferver durante 5 minutos e guardado em saco próprio que vem na embalagem.

Um copo menstrual pode ter uma durabilidade até 10 anos. Já imaginaram os milhares de pensos ou tampões que se gastam no mesmo período de tempo? O custo do copo varia entre 20 ou 30 euros, dependendo da marca. É uma ótima alternativa quando pensamos em poupança, ecologia e comodidade!

E tu? Já tinhas pensado em usar o copo menstrual?





Nota: vídeo retirado do canal youtube de OrganiCup – Menstrual Cup
Escolhe no símbolo "legendas" no canto inferior direito do vídeo, a opção em Português.

O OrganiCup é uma das marcas de copos menstruais disponíveis no mercado, tais como as marcas MeLuna, Lunette, Easy Cup, The DivaCup ou Moon Cup.
Não existe qualquer intuito publicitário a nenhuma das marcas mencionadas.



Tânia Ascensão
Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Violência Sexual


Alguma vez te sentiste incomodada/o por um ato ou atitude de natureza sexual e achaste que era melhor guardar segredo, ou que a culpa foi tua, ou deste por ti a desvalorizar o sucedido embora sentindo tristeza, angústia, medo, raiva ou repulsa? Conheces alguém a quem isto possa ter acontecido?

A Violência Sexual (VS) é qualquer tentativa ou interação de natureza sexual que acontece ou sem o consentimento ou sem a autodeterminação da pessoa que dela é vítima. Pode acontecer a qualquer pessoa, independentemente do sexo, idade ou outras características pessoais/culturais, mas estima-se que cerca de 35% das mulheres em todo o mundo já foram alguma vez vítimas de VS. Ela pode ser perpetrada por uma ou várias pessoas, que podem ser desconhecidas da vítima ou manter com ela diferentes tipos de relacionamentos (amizade, namoro, familiar, etc.). Isto é, a VS pode acontecer a qualquer pessoa, praticada por qualquer pessoa ou grupo de pessoas.

A VS é crime na lei portuguesa, expressa no nosso Código Penal, logo a vítima nunca é culpada. Perante a lei, pessoas com menos de 14 anos não possuem autodeterminação sexual, pelo que, mesmo que tenham consentido o ato sexual em causa, continua a ser um crime para quem o pratica. Se a vítima tiver entre 14 e 17 anos, em algumas circunstâncias, pode também considerar-se crime, caso seja praticado por alguém significativamente mais velho ou com uma relação de autoridade/poder sobre a vítima. Se a vítima tiver mais de 18 anos, é crime contra a liberdade sexual, logo só é crime se a pessoa não tiver consentido. Tendo a vítima idade inferior a 18 anos, a VS é um crime público, podendo ser denunciado por qualquer pessoa, anonimamente, não precisando de ser a vítima a apresentar queixa.

Muitas vezes, a VS passa despercebida porque se considera que ela só acontece quando há violação, vista como uma relação sexual com penetração não consentida. Não é verdade. Embora qualquer forma de penetração (seja vaginal, oral ou anal) não consentida seja um ato de VS, a sexualidade e as interações sexuais vão muito para além do coito. Além disso, a maioria dos abusos sexuais a crianças e jovens não incluem coito e resultam noutras formas de violência sexual, presentes no processo de aliciamento, que pode ser longo. Desengane-se quem acha que a violência sexual acontece sobretudo a partir de estranhos que violam pessoas inesperadamente. A maioria das vezes, a vítima relaciona-se ou é familiar do agressor sexual.

Assim, são formas de VS, para além das relações coitais não consentidas:
- a pressão ou obrigação para tocares nos genitais de alguém
- todo o tipo de toques no teu corpo que não consentiste (seres apalpado/a ou alguém roçar partes do seu corpo no teu)
- seres pressionado/a ou obrigado/a para assistires a filmes ou atos de natureza sexual e/ou pornográfica que não desejas presenciar
- pressionarem-te a enviares imagens íntimas tuas, ou terem interações online contigo aparentemente não sexuais e manipuladoras, com o objetivo de marcar um encontro contigo para fins sexuais (sexting e grooming)
- pressionarem-te ou obrigarem-te a te prostituíres
- dirigirem-te “piropos”, que na realidade são comentários sexuais explícitos e/ou ofensivos ou que te provocam medo (assédio sexual).

Se isto já aconteceu a ti ou a alguém que conheces, podes denunciar às autoridades e ligar gratuitamente para a linha 116 006 da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima). Lembra-te que será tudo mais difícil e penoso se te isolares. Protege-te. Procura apoio especializado.

Sónia Araújo
Psicóloga e Terapeuta Sexual
M’BE Mindful Butterfly Effect