terça-feira, 15 de janeiro de 2019

As tuas dúvidas têm um espaço: interrupção voluntária da gravidez (IVG)




Como prometido, todos os meses vamos responder em texto aberto às 5 dúvidas mais frequentes sobre o tema do mês. Como já sabes, o tema de Janeiro é "Interrupção voluntária da gravidez (IVG)", e assim sendo aqui ficam as respostas às perguntas mais comuns.


No caso de violação sexual, até quando é possível fazer um aborto?

Nos casos em que a gravidez seja resultado de crime contra a liberdade e autodeterminação sexual, a IVG pode ser realizada até às 16 semanas de gravidez.


Fazer um aborto diminui a probabilidade de conseguir ter filhos no futuro?

Hoje em dia as interrupções da gravidez podem e devem ser realizadas em centros médicos adequados com profissionais de saúde que prestam os cuidados necessários. Assim, o número de complicações é muito reduzido, fazendo com que a fertilidade não seja afetada. Aliás, como dito no post anterior, esta é retomada aproximadamente 10 dias após a IVG.


O aborto tem custos para a mulher?

Não. Nos hospitais oficialmente reconhecidos para o efeito, a IVG é um processo gratuito.


Quando posso começar um método para evitar a gravidez? 

No caso das pílulas orais, do implante subcutâno ou dos métodos de barreira (preservativo), estes podem ser iniciados no próprio dia da IVG. Os dispositivos no útero são também uma opção, podendo ser colocados na consulta de controlo que é realizada cerca de 15 dias após a IVG.


Tenho 15 anos. Posso fazer um aborto?

     É possível realizar uma IVG com 15 anos, mas é necessário a assinatura do consentimento informado pelo representante legal da jovem: pai, mãe ou tutor. Este é um procedimento obrigatório para menores de 16 anos.



Continuamos disponíveis para responder às tuas dúvidas. Basta deixá-las na caixa de comentários.
Não percas já no mês de Fevereiro o novo post. O tema do mês será dor menstrual.
Até lá!

sábado, 5 de janeiro de 2019

A interrupção voluntária da gravidez (IVG)


A interrupção voluntária da gravidez (IVG), ou aborto por opção da mulher, é permitida em Portugal desde 2007. Após esta data, e ao abrigo da Lei nº 16/2007, a mulher pode decidir terminar a gravidez até às 10 semanas e 6 dias, sendo esta realizada de forma gratuita em estabelecimentos de saúde devidamente autorizados e com os cuidados médicos adequados.
Até 2007 verificavam-se IVG´s realizadas de forma ilegal em locais não apropriados, com complicações de saúde graves e elevadas taxas de mortalidade. A legalização do aborto veio desta forma permitir a sua realização de forma legal e segura, respeitando a vontade da mulher e a sua integridade física e psicológica.
Como se procede nestes casos? Vamos explicar passo a passo
1- Sempre que se suspeite de gravidez, deve ser feito um teste à urina (adquirido numa farmácia) ou um teste sanguíneo.
2- Uma vez confirmada a gravidez, a mulher deve dirigir-se ao Centro de Saúde ou ao Hospital da sua área de residência e demonstrar a vontade de realizar uma IVG. Se a mulher desejar fazer a interrupção num hospital fora da área de residência, pode fazê-lo mas deve falar com o técnico de saúde de referência do seu Centro de Saúde ou Hospital.
3- Será depois encaminhada para uma consulta prévia, que é a consulta específica para a realização da IVG, normalmente marcada em 5 dias.
4- A mulher pode ir à consulta sozinha ou acompanhada. Nesta a equipa médica e de enfermagem deve fornecer a informação necessária para que a mulher tome uma decisão livre, informada e responsável.
5- É realizada na primeira consulta a datação da gravidez para confirmar que está ainda dentro do prazo legal (10 semanas e 6 dias) e que portanto se pode proceder à IVG
6- É entregue à mulher um consentimento assinado que deverá ser lido, assinado e entregue até à data de realização da IVG. No caso de adolescentes com menos de 16 anos ou mulheres psiquicamente incapazes, o consentimento deverá ser assinado pelo seu representante legal (pai, mãe ou tutor).
7- Na segunda consulta, obrigatoriamente marcada após um período mínimo de 3 dias de reflexão, é realizada a IVG de acordo com o método escolhido conjuntamente com a equipa médica. Se a mulher precisar de apoio psicológico/social ou aconselhamento ou ainda mais tempo de reflexão, este pode ser dado.
8- O aborto pode ser feito com medicamentos ou recorrendo a métodos cirúrgicos, sendo na grande maioria realizado sem necessidade de ficar internada. Na IVG medicamentosa há uma consulta para a primeira toma dos medicamentos, sendo a segunda toma normalmente feita 2 dias depois, em casa pela mulher. Nos casos cirúrgicos, a mulher vai ao bloco operatório fazer uma aspiração do conteúdo uterino sob anestesia, que demora apenas alguns minutos (5-20 minutos). Normalmente apenas fica no hospital uma manhã ou uma tarde.
9- No dia da IVG é marcada uma consulta de controle a realizar-se dentro de 2 semanas. Esta é fundamental para se confirmar se a IVG foi bem sucedida.
As complicações da IVG são raras se esta for feita nos locais de saúde adequados. A mulher pode voltar a ter relações sexuais quando se sentir preparada para isso, sendo que a fertilidade (capacidade da mulher voltar a engravidar) é retomada cerca de 10 dias depois da interrupção. É assim importante que a mulher tenha alta da consulta com um método contracetivo adequado e eficaz. Escolher um método para evitar a gravidez que melhor se adeque à mulher é um passo fundamental do processo de consulta pós-IVG.

É normal uma hemorragia vaginal mais abundante nos primeiros 3 dias após IVG, sendo que depois deste tempo irá torna-se cada vez menor. A perda de sangue dura ainda assim cerca de 10-14 dias, sendo que em alguns casos pode durar até 60 dias.
Após a IVG, a mulher deve estar especialmente atenta aos seguintes sinais de alarme para ir à urgência do hospital:
  • ·         Hemorragia muito forte
  • ·         Sensação de desmaio
  • ·         Febre alta e persistente
  • ·         Cólicas na barriga acompanhadas de dores violentas
  • ·         Episódios de diarreia persistentes após as primeiras 24 horas
  • ·         ​Desconforto emocional muito intenso e prolongado



Dra. Tânia Ascensão
Médica interna de Ginecologia Obstetrícia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

As tuas dúvidas têm um espaço: métodos para evitar a gravidez


Como prometido, todos os meses vamos responder em texto aberto às 5 dúvidas mais frequentes sobre o tema do mês. Como já sabes, o tema de Dezembro é "Métodos para evitar a gravidez", e assim sendo aqui ficam as respostas às perguntas mais comuns. 


Os dispositivos no útero podem ser utilizados por jovens sem filhos?

Sim, os DIU podem ser usados por adolescentes e outras mulheres jovens, mesmo que nunca tenham tido filhos. Existem alguns dispositivos recentes com uma cânula de menor diâmetro que facilita a introdução do aparelho. Mas mesmo os outros DIU podem ser colocados nestas mulheres. Não tem qualquer contraindicação e beneficiam igualmente das suas vantagens contracetivas.


Se eu não tomar a pílula sempre à mesma hora posso engravidar?

A pílula deve ser tomada sempre à mesma hora, de forma consistente. Existe um tempo de tolerância máximo de 12h ao seu esquecimento, sem que exista necessidade de fazer outro tipos de medicamentos ou precauções. Ainda assim é importante evitar estes esquecimentos para garantir uma protecção contracetiva. Se houver esquecimentos na toma da pílula fora deste intervalo de segurança a gravidez pode acontecer sim, e nesses casos temos opções como a pílula do dia seguinte caso tenha existido uma relação sexual desprotegida. Se há esquecimentos frequentes na toma da pílula então este não é o método ideal para ti. E tens muitos outros que podes escolher de acordo com a tua preferência.


A pílula provoca aumento do peso?

O aumento do peso associado à pílula é um mito. De facto, não está comprovada esta associação. Se o aumento do peso acontecer, estará concerteza relacionado com outros fatores que não a toma do contracetivo hormonal oral (pílula).


O anel vaginal é difícil de colocar?

Apesar de o anel vaginal necessitar da manipulação dos genitais, não é difícil de colocar. Temos aliás muito boa resposta por parte das adolescentes relativamente a este método contracetivo. Existe disponível nos centros de saúde e hospitais um aplicador que facilita a introdução do anel na vagina, caso a jovem assim o prefira.


Tenho uma amiga que usa o implante que se coloca no braço e não menstrua. Isso não é prejudicial à saúde?

Não menstruar na sequência de um implante subcutâneo não traduz qualquer problema de saúde. Com este método as mulheres podem menstruar de forma regular, ter hemorragias irregulares ou não menstruar de todo, e qualquer uma destas situações é normal. Outra coisa diferente é a mulher não menstruar sem qualquer medicação contracetiva hormonal: nesse caso deve ser estudada por um médico especialista para que se possa fazer um diagnóstico.


Continuamos disponíveis para responder às tuas dúvidas. Basta deixá-las na caixa de comentários.
Não percas já no mês de Janeiro o novo post. O tema do mês será interrupção voluntária da gravidez.
Até lá!



sábado, 1 de dezembro de 2018

Métodos para evitar a gravidez


Os métodos para evitar a gravidez, designados por métodos contracetivos, são facilmente acessíveis e disponibilizados gratuitamente em consultas de Planeamento Familiar e de adolescentes. A escolha do método depende da eficácia, comodidade e conveniência de cada um deles.



A contraceção oral combinada (pílula) quando tomada de forma correta, é um método eficaz, com taxas de falha de 0.1%. Existem embalagens de 21 (tomar 1 comprimido por dia durante 21 dias e pausa de 7 dias), 22 (tomar 1 comprimido por dia durante 22 dias e pausa de 6 dias) e de 28 comprimidos (sem pausa entre as embalagens).  Os esquecimentos podem estar associados a risco de gravidez. Para os evitar podes criar um alerta no teu telemóvel



O adesivo contracetivo coloca-se sobre a pele e permite uma libertação hormonal contínua. Apresenta uma elevada eficácia, quando corretamente utilizado. Aplicar a primeira vez no 1º dia do ciclo e usar durante 21 dias (1 adesivo por semana); 7 dias de pausa.




O anel vaginal, de libertação hormonal, é flexível e tem uma eficácia contracetiva superior a 99% quando corretamente utilizado. É colocado na vagina pela própria utilizadora e a maioria das mulheres acha que a sua colocação e remoção são fáceis (semelhante ao tampão). Pode ficar fora da vagina até 3 horas, sem afetar a sua eficácia. Aplicar no 1º dia do ciclo e manter durante 21 dias, com 7 dias de pausa.



Atualmente, os LARC (Long-Acting Reversible Contraception) são reconhecidos como os métodos mais eficazes para evitar uma gravidez indesejada na adolescência. Os mais utilizados são o implante subcutâneo e o dispositivo/sistema intrauterino.


O implante subcutâneo é colocado na consulta e tem uma duração de 3 anos. Apontam-se como desvantagens as hemorragias uterinas anómalas  e o facto da sua eficácia não estar comprovada em adolescentes obesas (IMC > 30kg/m2).




Os dispositivos intra-uterinos (DIU) e os sistemas intrauterinos com  Levonogestrel  (SIU-LNG)  têm uma longa duração de ação (entre os 3 e os 10 anos). Os SIU-LVN têm um efeito benéfico nos casos em que existem hemorragias uterinas anómalas ou dores menstruais.



Os métodos anteriormente referidos não protegem contra as infeções sexualmente transmissíveis pelo que se aconselha a associação do uso de preservativo. Se este se romper durante a relação sexual e no caso de estar a ser usado isoladamente deve efetuar-se a contraceção do dia seguinte.


Dra Helena Barros Leite 
Médica especialista de Ginecologia Obstetrícia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra