quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Contraceção de longa duração


A contraceção de longa duração não depende da lembrança diária da sua toma pelas utilizadoras. Existem diferentes tipos que variam na sua forma de administração e período de tempo após o qual deve ser trocada.

É um excelente método para aquelas adolescentes que se esquecem frequentemente de tomar a pílula ou que usem outros métodos mais dependentes da sua lembrança. De realçar que todos eles são reversíveis, o que significa que quando suspensos a fertilidade volta ao seu normal.

Em Portugal temos o progestativo injetável, progestativo subcutâneo e os dispositivos intra-uterinos.


Progestativo injetável

Em Portugal existe o Depo-Provera®  que é um progestativo isolado (não tem estrogénios) e é administrado sob a forma de injeção intramuscular de 12 em 12 semanas (3 em 3 meses) no Centro de Saúde ou Hospital.

Deve ser iniciado idealmente nos primeiros 7 dias da menstruação para garantir maior eficácia contra uma gravidez indesejada, sendo depois repetido de 12 em 12 semanas como explicado anteriormente.
Pode ainda assim ser iniciado em qualquer fase do ciclo, desde que excluída uma gravidez e com uso de proteção adicional com preservativo durante os 7 dias seguintes à primeira injeção.
Se por acaso já fazes outro método contracetivo e queres mudar para o progestativo injetável é possível, sendo aconselhado manter o outro método durante 7 dias após a injeção e só depois descontinuá-lo.
Em caso se esquecimento da injeção intramuscular para além das 15 semanas de intervalo, deve ser feito um teste de gravidez antes da próxima injecão e ter cuidado em usar proteção adicional com preservativo durante a primeira semana após a toma.

Ainda que seja um método possível nas adolescentes, não deve ser a escolha de primeira linha porque pode interferir com a densidade mineral óssea. Apesar de ser um método resersível, o retorno à fertilidade pode não ser imediato após a sua suspensão.


Progestativo subcutâneo

Existe o Implanon NXT®, um implante que parece um pequeno bastão com cerca de 4 cm de comprimento e 2 mm de largura. Este liberta progestativo isolado (não tem estrogénios) e coloca-se debaixo da pele do braço no Centro de Saúde ou Hospital. A colocação é simples e rápida, após a administração de anestesia local. É muito eficaz e apenas precisa ser trocado de 3 em 3 anos. A sua remoção é igualmente feita num centro médico, após uma anestesia local e uma muito pequena incisão no braço através da qual se tira o implante.

O implante deve idealmente ser inserido nos primeiros 5 dias do ciclo, mas pode ser iniciado em qualquer altura, desde que excluída uma gravidez e com uso de proteção adicional com preservativo durante os 7 dias seguintes à colocação.

Se já fazes outro método e queres introduzir o implante, a troca é possível sem precisar de contraceção adicional. Idealmente deves fazê-lo da seguinte forma:

  • Pílulas com estrogénio e progestativo – inserir durante a semana de suspensão do método
  • Pílulas só com progestativo – inserir em qualquer momento
  • Progestativo injetável – inserir na data da próxima injeção
  • Implante subcutâneo ou DIU – inserir no momento da remoção do método anterior

Após a sua remoção, o retorno à fertilidade é imediato. As “menstruações” podem ser regulares, irregulares ou até mesmo ausentes, sem que nenhuma das situações traduza um problema médico.


Dispositivos intra-uterinos (DIU´s)

Os dispositivos intrauterinos (DIU´s) podem ser hormonais ou não hormonais. Apesar dos mitos sobre a introdução de DIU´s na adolescência, estes podem ser utilizados, existindo mesmo opções com cânulas de inserção de menor tamanho para faciliar a introdução.

A sua colocação é feita no Centro de Saúde ou Hospital, idealmente no período menstrual. É utilizada a marquesa ginecológica e um espéculo, que é um aparelho de metal ou plástico que permite ver o colo do útero e assim introduzir o aparelho através deste orifício para dentro da cavidade uterina. 

Existe um ligeiro desconforto aquando da sua colocação, mas não é necessária qualquer tipo de anestesia. São deixados cerca de 2 cm de fio na vagina que vai ser importante para tirar o dispositivo mais tarde. Os fios e o aparelho não se vêem e não se sentem na relação sexual, sendo um método muito eficaz e confortável.

Existem DIU´s com libertação de hormona que podem ser trocados de 3 em 3 ou de 5 em 5 anos, consoante o aparelho pelo qual se opte. Nos casos do DIU não hormonal, a troca pode ser feita de 10 em 10 anos.

Para a sua remoção, é necessário novamente ir ao centro médico utilizando-se um método semelhante à introdução mas ainda mais simples, porque consiste apenas em puxar o aparelho pelos fios que ficaram na vagina.

Após a sua remoção, o retorno à fertilidade é imediato.
Nos DIU´s hormonais as “menstruações” podem ser regulares, irregulares ou até mesmo ausentes, sem que nenhuma das situações traduza um problema médico. No caso dos DIU´s não hormonais, as menstruações continuam com a regularidade que tinham antes da sua colocação.


Se te esqueces muitas vezes de tomar a tua contraceção e andas sempre preocupada, um destes métodos pode ser a solução. São seguros, práticos e totalmente gratuitos nos Centros de Saúde e Hospitais. 



E então, qual é o método contracetivo ideal para ti?


Dra.Tânia Ascensão
Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra


segunda-feira, 1 de julho de 2019

A intimidade e os media


Já te imaginaste ou tiveste a experiência de viver por um tempo sem telemóvel, computador ou outros dispositivos que te permitem estar online?

Talvez não seja tão difícil como possas pensar, mas será com certeza uma experiência bem diferente da realidade que os/as jovens como tu vivem no dia-a-dia.
Vivemos numa era digital e a verdade é que as novas tecnologias fazem parte da vida de todos nós, permitindo-nos estar conectados em permanência com os outros e com o mundo.

Os telemóveis, as redes sociais como o WhatsApp, o Instagram, o Facebook e o Twitter, o Tinder e os jogos online, são exemplos de novas formas de socializar que tens à tua disposição e te permitem estar em permanente contacto com os outros, o que representa, sem dúvida, muitas vantagens, mas também alguns riscos.

É importante que saibas quais os cuidados que deves ter na sua utilização e que disponhas da informação correta para identificar os possíveis perigos e riscos que determinados comportamentos podem representar, salvaguardando a tua privacidade, intimidade, segurança e bem-estar.
O mundo online dá-te a oportunidade de “conhecer” e interagir com muitas pessoas e podes, inclusivamente, manter várias “amizades” virtuais sem nunca teres contacto direto com as pessoas.

Apresentamos-te alguns dos aspetos que deves ter em atenção, com vista a protegeres a tua identidade e privacidade online:

Cuidado com as fotografias e vídeos que partilhas. 
Muito do que fazes e dizes online pode ser visto, e inclusive, fica registado! Mesmo que posteriormente te arrependas e queiras eliminar e apagar, nunca poderás controlar quem tem acesso a esses dados e de que forma pode utilizar essas informações ou imagens.
Uma boa regra para saberes se determinado comentário ou foto é adequado para publicar, será tentares perceber se num contacto direto o farias e se não te importavas que esse comentário ou foto fosse do conhecimento de outras pessoas. Se achas que não, então o mais provável é que também não o queiras fazer online.

Não publiques comentários impróprios ou sexualmente provocativos
Para além destes comentários poderem levantar questões éticas, morais e até legais, é importante que saibas que ao assumires determinados comportamentos de cariz sexual na internet, estes podem suscitar uma atenção sexual indesejada e uma maior exposição a situações de assédio moral ou sexual.
O anonimato em salas de chat, redes sociais ou noutros sites, pode levar algumas pessoas a dizer ou fazer determinados comentários ou ainda a partilhar fotos íntimas, pela ilusão de que são momentos privados, no entanto, tal não corresponde à verdade, pois estes podem ser facilmente partilhados e divulgados e/ou até, motivo de chantagem financeira ou para que envies novas fotos.
 É provável que já tenhas ouvido falar ou até conheças alguém que viu a sua privacidade comprometida ou teve problemas por algo que publicou ou partilhou online.

Não respondas a comentários ou conteúdos ofensivos. 
Não aceites pedidos de amizade se o conteúdo da página te deixar desconfortável. Muitos/as jovens recebem mensagens e solicitações impróprias quando estão online. Estas podem provocar receios, medos, estranheza e mesmo embaraço.
Se sentires que estás a ser assediado/a por uma pessoa estranha ou “um/a amigo/a” on-line, responder pode piorar a situação, envolvendo-te numa troca de mensagens que te pode comprometer e/ou levar a fazer algo que não desejas.
O ideal será bloqueares o acesso a essa pessoa e falares com uma pessoa adulta da tua confiança dando conhecimento desta situação.

Não respondas a solicitações inadequadas.
Não aceites conhecer os/as “amigos/as” virtuais pessoalmente, tal como não o farias normalmente no dia-a-dia, se alguém estranho te abordasse na rua. É muito fácil uma pessoa fingir ser algo que não é, aproveitando-se do anonimato do mundo virtual.
A curiosidade e o desejo de conhecer pessoas novas e/ou diferentes pode levar a decisões precipitadas e impulsivas que podem resultar em comportamentos de risco. E apesar de a maior parte dos/as utilizadores/as fazer um uso adequado das redes sociais, deves saber que há pessoas mal-intencionadas que utilizam as redes sociais e salas de chat para outras finalidades (por exemplo, situações de pedofilia, cyberbullying, entre outras).

Pode ser um grande desafio controlar e estabelecer regras para utilizares a internet e redes sociais, com segurança. Mas, se começares por definir o que deves/queres partilhar sobre ti e com quem queres fazê-lo, a tarefa será certamente mais fácil!


Associação Para o Planeamento da Familia

Equipa “ Sexualidade em Linha”



sábado, 1 de junho de 2019

Perturbações do Comportamento Alimentar


                                       
Como é que as Perturbações do Comportamento Alimentar aparecem na Adolescência?

Uma das mudanças mais evidentes que acontece na Adolescência, refere-se ao corpo.
Mudam-se os corpos…mudam-se as vontades…tu comparas-te e comparam-te.
Os modelos que tentas copiar estão, habitualmente, deslocados no tempo e na forma. No tempo, porque, muitas vezes, são mais velhos, uma década (por exemplo a Sara Sampaio, que tem quase trinta anos); na forma porque as imagens dos modelos que pretendes imitar, são frequentemente estilizadas, ou seja, alteradas com o fim de obter um determinado efeito estético.
Neste conjunto das mudanças, está aquilo que sentes em relação à tua imagem e à tua satisfação ou insatisfação corporal.
E, neste emaranhado de emoções, caminhas entre o que és, o que gostarias de ser e como idealizas a tua própria imagem no futuro. Temes muito a rejeição e há uma insegurança enorme relacionada com a tua imagem corporal, pelo que, quase sem dares por isso, envolves-te em dietas ou exercício físico exagerado.
As dietas são consideradas, os comportamentos mais frequentes que iniciam as Perturbações do Comportamento Alimentar.
Quando te apercebes, vives entre pesos, medidas, angústias e desgastas-te na procura inalcançável de uma beleza ideal.
Os distúrbios alimentares surgem assim, neste contexto, sob múltiplas formas, sendo uma das doenças crónicas, mais frequente, na tua idade e que pode ter consequências para toda a vida.


O que são as Perturbações do Comportamento Alimentar?

Nas últimas décadas, tem-se assistido a um aumento na incidência das Perturbações do Comportamento Alimentar na adolescência, sendo a terceira doença crónica mais comum nesta etapa da vida.
 A doença, que provavelmente mais ouviste falar, é a Anorexia Nervosa, uma das doenças psiquiátricas mais graves na adolescência.
Está associada a um receio intenso de engordar, apesar do baixo peso objetivo. Nesta doença, esta questão, assume um papel central na tua vida.
Passas a avaliar-te constantemente, em termos de peso e forma corporal e, como a doença decorre num período crítico do teu desenvolvimento pessoal e social, este vai ficar muito afetado. Vives num receio permanente de engordar e ser avaliado pelos outros.
É uma doença com muitas complicações orgânicas, atribuídas à restrição calórica e à perda de peso e cerca de metade das mortes são de causa orgânica.

As dietas milagrosas, impõem grandes restrições calóricas, devendo ser evitadas, porque reduzem o aporte de nutrientes importantes, não podem ser sustentadas por longos períodos de tempo e podem prejudicar gravemente a tua saúde. Pode haver, inclusivamente, comprometimento importante dos órgãos. Estas dietas, não permitem a aquisição de hábitos alimentares adequados e são perigosas para a saúde. Podem, paradoxalmente, resultar numa  perda de massa magra.

O peso saudável resulta de uma alimentação e de um exercício equilibrados. Um corpo perfeito, é aquele que nos faz sentir bem connosco mesmos e, fundamentalmente, um corpo que nos permita ser saudáveis.
A beleza vem de dentro para fora e cada um de nós é especial e único.

Dra Alzira Ferrão Ferreira
Centro Hospitalar Tondela Viseu

quarta-feira, 1 de maio de 2019

As transformações da puberdade


A puberdade corresponde às transformações físicas e psicológicas que ocorrem na transição da infância para a adolescência.

As transformações mais visíveis tanto em meninos como meninas são o crescimento rápido em altura e o desenvolvimento de caracteres sexuais secundários (exemplo: aparecimento dos pêlos púbicos, crescimento das mamas nas meninas, voz grave nos meninos, etc).
Existe uma grande variedade entre os jovens no que respeita à idade em que estas transformações ocorrem, que dependem de múltiplos fatores como a genética, o peso e a quantidade de gordura corporal.

O que causa a puberdade?

As transformações da puberdade ocorrem devido à ação de hormonas. As hormonas que são produzidas no cérebro atuam nos ovários nas mulheres e nos testículos nos homens. Estes orgãos produzem por sua vez as hormonas sexuais femininas e masculinas.

Outro tipo de hormonas produzidas na glândula suprarrenal, têm também contributo nas transformações da puberdade, nomeadamente no crescimento de pêlos púbicos, pêlos axilares e acne.

Transformações da puberdade nas meninas

No sexo feminino, as hormonas sexuais produzidas nos ovários são o estrogéneo e a progesterona. Estas hormonas atuam em vários órgãos do corpo, estimulando o seu crescimento e funcionamento.
Na maior parte das meninas, o primeiro sinal da puberdade é o crescimento das mamas. Em menor percentagem  pode surgir primeiro o crescimento do pêlo púbico.
Aproximadamente cerca de 2 anos após estas primeiras alterações, surge a primeira menstruação a que damos o nome de menarca. Cerca de 6 meses antes da menarca, começa a ocorrer um corrimento vaginal transparente ou esbranquiçado, de consistência líquida, sem cheiro que também resulta da ação das hormonas na vagina.
Após a menarca, as menstruações que se seguem são muito frequentemente irregulares. As irregularidades podem ocorrer durante alguns anos após a menarca mas com o amadurecimento do eixo hormonal, os ciclos menstruais têm tendência a regularizarem.

Transformações da puberdade nos meninos
No sexo masculino, com a ação da testosterona, a primeira alteração que frequentemente se observa é o crescimento dos testículos.
Com o desenvolvimento, o pénis aumenta de tamanho, há o crescimento de pêlos púbicos, axilares e faciais, inicia-se a ejaculação de esperma durante o sono, a voz torna-se mais grave e o tecido muscular desenvolve-se.
Por vezes, pode acontecer o desenvolvimento ligeiro das mamas porque alguma testosterona pode ser convertida em hormona sexual feminina que promove este crescimento. Geralmente ocorre no início da puberdade e tende a diminuir e resolver espontaneamente com o tempo.

Outras alterações da puberdade
As alterações da puberdade podem afetar o funcionamento psicológico, podendo surgir depressão, ansiedade, perturbações na auto-imagem, perturbações no humor e no comportamento social.

O acompanhamento da criança/adolescente por profissional de saúde durante esta fase da vida é importante para avaliar a sequência do crescimento e aquisição dos caracteres sexuais secundários, a informação e o esclarecimento de dúvidas que poderão surgir como o aconselhamento contracetivo, a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, entre outros.

Dra Cátia Silva
Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

segunda-feira, 15 de abril de 2019

As tuas dúvidas têm um espaço: vacina do HPV


Como prometido, todos os meses vamos responder em texto aberto às 5 dúvidas mais frequentes sobre o tema do mês. Como já sabes, o tema de Abril é " Vacina do HPV", e assim sendo aqui ficam as respostas às perguntas mais comuns. 

1. A vacina do Centro de Saúde é só dada as raparigas. É uma vacina exclusiva das meninas?

O Programa Nacional de Vacinação Português para já apenas oferece a vacina às raparigas, mas os rapazes também têm toda a vantagem em recebê-la. 
Tratando-se o HPV de uma doença sexualmente transmissível, é real a importância da prevenção em ambos os sexos. 

Assim, diminui-se o risco de transmissão e previne-se a incidência de doença no colo do útero, anûs, pénis, orofaringe ou outros locais relacionados com a transmissão sexual do vírus.


2. Como é administrada a vacina?

A vacina contra os genótipos 16 e 18  (bivalente - Cervarix) é administrada aos 0, 1 e 6 meses (3 doses).

A vacina contra os genótipos 6,11,16,18 (tetravalente – Gardasil 4) e contra os genótipos 6,11,16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58 (nonavalente – Gardasil 9) tem uma administração que depende da idade:

  • Para rapazes e raparigas ≥ 10 e < 15 anos de idade: esquema de 2 doses aos 0 e aos 6 meses
  • Para rapazes e raparigas ≥ 15 anos: esquema de 3 doses aos 0, 2 e 6 meses.


3. Quanto custa a vacina?

A vacina quando administrada segundo o plano nacional de vacinação é gratuita, isto é para raparigas com idade inferior a 18 anos.

Para mulheres com mais de 18 anos e  para os rapazes, cada dose da vacina nonavalente (Gardasil 9) custa 143.40 euros, sendo que dependendo da idade devem ser feitas 2 ou 3 doses (286.8 euros ou 430.2 euros).

Cada dose da vacina bivalente (Cervarix) custa 45.66 euros. Assim sendo, as 3 doses recomendadas tem um custo total de 136.98 euros.

4. A vacina previne por completo o aparecimento do cancro do colo do útero?

A vacina previne o aparecimento do cancro do colo do útero relacionado com os vírus abrangidos pelos genótipos da vacina.

Como já explicado, 70-75% dos casos de cancro do colo do útero estão relacionados com infecção por HPV tipos 16 e 18. Assim sendo, todas as vacinas disponíveis abragem estes genotipos. 

A vacina tetravalente abrange ainda os genótipos 6 e 11 responsáveis na sua maioria pelo aparencimento de verrugas e condilomas (90%). 

A vacina novavalente acresce a estes genótipos os 31, 33, 45, 52 e 58, considerados também HPV de alto risco para o aparecimento de cancro do colo do útero. 

Assim, compreendemos que a vacinação é essencial para a prevenção do cancro do colo do útero, não devendo ser descurado o uso do preservativo.


5. Se eu fizer a vacina, já não preciso fazer o rastreio do cancro do colo do útero?

Não, esta informação não é verdadeira. Apesar da vacinação ser um passo importante na prevenção do cancro do colo do útero, o rastreio deve ser mantido para todas as mulheres de igual forma.



Não percam já no próximo  mês um novo tema de debate no blog: as transformações da puberdade!
Até lá.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Vacina do HPV


O HPV (vírus do papiloma humano) é um vírus que infecta seres humanos. Foram identificadas mais de 200 sub-tipos. A sua transmissão é feita através do contracto directo entre indivíduos, sendo a transmissão vertical muito rara.

A maioria das infecções provocadas pelo HPV são transitórias e regridem espontaneamente, no entanto, cerca de 10% podem tornar-se persistentes e as lesões resultantes, quando não tratadas, podem evoluir para um estado de pré-malignidade (3-4%) ou cancro. A evolução destas lesões é geralmente muito lenta e assintomática.
As infecções persistentes podem causar lesões benignas como as verrugas ano-genitais, condilomas, as verrugas das mãos e pés conhecidas por “cravos” e lesões do epitélio do colo do útero e da cavidade orofaríngea. Infecções persistentes por estirpes de alto risco podem ser responsáveis pelo cancro colo do útero (CCU), menos frequentemente cancro da vulva, vagina, ânus e mais raramente o cancro laríngeo, orofaringe e boca. O CCU é, assim, a patologia mais relevante relacionada com a infecção persistente pelo HPV que evolui para formas invasivas.

70-75% dos casos de CCU estão relacionados com infecção por HPV tipos 16 e 18. 90% dos condilomas estão relacionados com infecção pelos genótipos 6 e 11.
A Infecção ano-genital por HPV é a infecção de transmissão sexual mais comum. O vírus pode ser transmitido durante o sexo vaginal, oral, anal ou durante o contacto íntimo entre indivíduos em que pelo menos um esteja infectado. Tal como a maioria das DST a incidência é maior em jovens na faixa dos 15-25 anos. Estima-se que cerca de 80% de indivíduos sexualmente activos do sexo masculino e feminino sejam expostos ao HPV em alguma altura das suas vidas.

Muitas lesões, como os condilomas, são imperceptíveis pela sua localização e dimensões. Outras como as localizadas no colo do útero, poderão não ser detectadas caso não se proceda ao seu rastreio de forma regular.
O teste citológico do colo uterino, a colpocitologia, é a forma de rastreio que permite identificar e tratar precocemente as lesões precursoras do CCU. O teste do HPV-DNA possibilita a caracterização genotípica do vírus e está recomendado perante alterações das células do colo uterino presentes no rastreio, de forma a definir um plano de vigilância e tratamento.

Não existe tratamento para a infecção por HPV, mas para as lesões decorrentes. Este pode consistir na destruição ou excisão dos tecidos afectados.
A vacina contra o HPV é a forma mais eficaz de prevenção da infecção por HPV.
Ouras medidas preventivas são a utilização do preservativo e a adopção de comportamentos sexuais saudáveis.

A vacinação universal contra o HPV tem como objectivo a prevenção de infecções por este vírus e a diminuição a longo prazo da incidência de cancro do colo uterino que é o 2º cancro mais comum nas mulheres a nível mundial. Esta doença mata mais de 4,5/100000mulheres acima dos 15anos em Portugal (2005).
A Introdução desta vacina foi aprovada em Portugal em 2008.
As vacinas existentes protegem contra os subtipos que se sabem serem mais oncogénicos, ou seja que poderão causar o cancro do colo uterino e também contra as estirpes responsáveis pelos condilomas ano-genitais.
São comercializadas actualmente vacinas contra os genótipos 16 e 18  (bivalente), 6,11,16,18 (tetravalente) e mais recentemente 6,11,16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58 (nonavalente). A produção é feita a partir de partículas semelhantes à capsula do vírus (VLP) através de tecnologia de DNA recombinante. Após a sua administração intra-muscular o sistema imunitário do indivíduo reage produzindo anticorpos que neutralizam estas partículas.

A vacina faz parte do plano nacional de vacinação, sendo administrada a meninas entre os 12- 13 anos. A vantagem da vacinação nestas idades prende-se com a menor probabilidade de prévia exposição ao vÍrus e a uma maior de produção de anticorpos.
Estudos demonstram ser eficaz mesmo quando administrada mais tarde. Pode ser recomendada em casos de lesão do colo uterino previamente diagnosticada e tratada, na medida em que reduz a reinfecção, previne infecção por outras estirpes, diminuindo a recorrência das lesões.
Recomendações actuais vão no sentido da vacinação de rapazes, o que já integra o plano vacinal de alguns países.
Vários estudos têm sido conduzidos mundialmente de forma a garantir a segurança da vacina. Até à data não se encontrou associação entre a vacina contra o HPV e eventos adversos auto-imunes, neurológicos ou tromboembólicos.

Com uma boa adesão a esta vacina a nível global poderemos, num futuro próximo, erradicar o cancro do colo do útero e reduzir a incidência de outras neoplasias.



Dra Naiegal Pereira 
Hospital Beatriz Ângelo (Loures)

sexta-feira, 1 de março de 2019

Infeções Sexualmente Transmissíveis (ISTs): Qual o seu impacto?




As ISTs podem surgir em qualquer pessoa, de todas as idades, desde que tenha iniciado a sua vida sexual. Estas infeções ocorrem quando existe uma relação sexual (vaginal, anal ou oral) em que um dos elementos do casal está infetado e não são utilizadas medidas de prevenção dessa transmissão, isto é, quando não é utilizado o preservativo.  

Apesar do sexo não protegido ser o principal fator de risco para as ISTs, a fase da adolescência (por ser um período da vida em que há a descoberta da vida sexual e, muitas vezes, comportamentos de maior risco), ter múltiplos parceiros sexuais, e ter consumos exagerados de álcool e drogas são outros fatores de risco bem conhecidos.

Nas adolescentes com vida sexual ativa, muitas vezes a sua maior preocupação é a ocorrência de uma gravidez não desejada. No entanto, é importante ter a noção que as ISTs são mais frequentes e que podem estar associadas a complicações graves para a saúde atual e futura.  

Apesar de algumas ISTs poderem dar sintomas imediatos (corrimento vaginal com côr e/ou cheiro diferente, dor pélvica ou dor a urinar), estas infeções podem ser totalmente assintomáticas durante semanas ou até mesmo anos após a infeção. O facto de serem assintomáticas faz com que a pessoa não saiba que tem a infeção e por isso possa infetar várias outras pessoas ao longo do tempo. Por outro lado, se a pessoa não sabe que tem a infeção, não procura o médico e não faz o tratamento adequado/curativo, o que nos leva a uma das principais preocupações relativas às ISTs e que é o impacto a longo prazo que estas infeções podem ter na saúde.

Dependendo do microrganismo que causa a infeção, o impacto das ISTs não tratadas pode ser diferente: a infeção prolongada pelo Vírus do Papiloma Humano (HPV) está associada a maior risco de ter cancro do colo do útero; Por outro lado, a infeção por Chlamydia e Neisseria pode causar doença inflamatória pélvica ( uma infeção do útero, trompas e ovários) que pode provocar alterações nestes órgãos e levar à ocorrência de dor pélvica crónica (contribuindo para uma diminuição da qualidade de vida), infertilidade ( dificuldade ou impossibilidade de engravidar no futuro) e gravidez ectópica (gravidez fora do útero); A infeção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) é uma infeção crónica (não existe cura), que exige a toma diária de medicação e que aumenta o risco de vir a ter várias complicações de saúde. A Sífilis é uma infeção com diferentes fases de evolução, associada a diferentes sinais e sintomas e que pode ter consequências muito graves para a saúde da mulher. Se a infeção por qualquer um destes microrganismos ocorrer durante a gravidez, também pode causar complicações na gravidez ou no bebé.

A principal arma que temos contra as ISTs é a prevenção através da utilização do preservativo. No entanto, o rastreio destas infeções, que pode ser realizado de forma fácil, anónima e gratuita em qualquer consulta de Adolescentes, é a única forma de diagnosticarmos e tratarmos precocemente estas infeções, evitando as suas consequências.


Dra Ana Marujo
Centro Hospitalar Lisboa Central - Maternidade Alfredo da Costa

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Dor menstrual

A dor menstrual ( dismenorreia - termo médico) é uma dor cíclica associada ao período menstrual.

É comum em adolescentes, existindo em 60 a 90% das jovens , sendo das queixas ginecológicas mais frequentes nesta faixa etária.
Em 15 a 30% das situações, a dor menstrual severa inibe a atividade diária levando mesmo ao absentismo escolar.

TIPOS
  • Dismenorreia primária - funcional - A da adolescente habitualmente
  • Dismenorreia Secundária ( 10% casos ) - Que resulta de uma causa , como pólipos , miomas ou endometriose - rara em jovens

COMO / QUANDO ?

Aparece normalmente 1 a 3 anos após a 1ª menstruação ( quando começa a ovulação ).
Pode diminuir ou não a intensidade ao longo dos anos

A  dor surge 1-4 h antes do fluxo menstrual e dura 24-72 h . Localiza-se nos quadrantes inferiores do abdómen podendo irradiar para a região lombar.
Dependendo da sua intensidade , a dor pode ser acompanhada de outros sintomas como : Náuseas , vómitos , diarreia , dores de cabeça , tonturas...


PORQUÊ ? CAUSA ?

Todos os meses, o  útero prepara-se para receber um novo embrião. Nessa preparação( relacionada com as modificações hormonais ao longo do ciclo ) cria- se uma camada espessa dentro do útero chamada endométrio.

Quando não há fecundação , há produção de Prostaglandinas que são substancias que fazem contrair o útero e eliminar o endométrio. E aí temos a dor menstrual  , que advém de um processo totalmente natural , não patológico.


DIAGNÓSTICO

Habitualmente não são necessários exames para fazer o diagnóstico porque a causa é determinada pelo médico pela história clinica ( dor que aparece ciclicamente na menstruação ) e exame físico normal. O exame ginecológico não é necessário a maioria das vezes .


COMO SE TRATA ?

O tratamento de escolha inicial devem ser os anti-inflamatórios como o Ibuprofeno ou Naproxeno.
Estes reduzem a produção de Prostaglandinas e a dor menstrual
Devem ser iniciados ao primeiro indicio de dor e mantidos 2 ou 3 dias se necessário.
É aconselhável a sua toma às refeições.

Os contracetivos orais ( pilulas ) serão a 2ª escolha ou a primeira se a adolescente é sexualmente ativa, pois aqui também vai prevenir a gravidez indesejada.
A pilula  atua inibindo a ovulação e limitando o crescimento do endométrio, reduzindo o tecido endometrial disponível para a produção de Prostaglandinas.

Há ainda outros procedimentos que podem aliviar a dor menstrual como :
  • Aplicação de calor no baixo ventre
  • Sono relaxante
  • Exercício físico
  • Massagens
  • Alimentos ricos em ómega 3 ( como o peixe ) e Magnésio

Há ainda situações de dismenorreia secundária , que são raras em jovens e que têm diagnóstico e orientação adequados a cada uma delas.


Dra Helena Solheiro 

Médica especialista de Ginecologia Obstetrícia - Viseu 

sábado, 5 de janeiro de 2019

A interrupção voluntária da gravidez (IVG)


A interrupção voluntária da gravidez (IVG), ou aborto por opção da mulher, é permitida em Portugal desde 2007. Após esta data, e ao abrigo da Lei nº 16/2007, a mulher pode decidir terminar a gravidez até às 10 semanas e 6 dias, sendo esta realizada de forma gratuita em estabelecimentos de saúde devidamente autorizados e com os cuidados médicos adequados.
Até 2007 verificavam-se IVG´s realizadas de forma ilegal em locais não apropriados, com complicações de saúde graves e elevadas taxas de mortalidade. A legalização do aborto veio desta forma permitir a sua realização de forma legal e segura, respeitando a vontade da mulher e a sua integridade física e psicológica.
Como se procede nestes casos? Vamos explicar passo a passo
1- Sempre que se suspeite de gravidez, deve ser feito um teste à urina (adquirido numa farmácia) ou um teste sanguíneo.
2- Uma vez confirmada a gravidez, a mulher deve dirigir-se ao Centro de Saúde ou ao Hospital da sua área de residência e demonstrar a vontade de realizar uma IVG. Se a mulher desejar fazer a interrupção num hospital fora da área de residência, pode fazê-lo mas deve falar com o técnico de saúde de referência do seu Centro de Saúde ou Hospital.
3- Será depois encaminhada para uma consulta prévia, que é a consulta específica para a realização da IVG, normalmente marcada em 5 dias.
4- A mulher pode ir à consulta sozinha ou acompanhada. Nesta a equipa médica e de enfermagem deve fornecer a informação necessária para que a mulher tome uma decisão livre, informada e responsável.
5- É realizada na primeira consulta a datação da gravidez para confirmar que está ainda dentro do prazo legal (10 semanas e 6 dias) e que portanto se pode proceder à IVG
6- É entregue à mulher um consentimento assinado que deverá ser lido, assinado e entregue até à data de realização da IVG. No caso de adolescentes com menos de 16 anos ou mulheres psiquicamente incapazes, o consentimento deverá ser assinado pelo seu representante legal (pai, mãe ou tutor).
7- Na segunda consulta, obrigatoriamente marcada após um período mínimo de 3 dias de reflexão, é realizada a IVG de acordo com o método escolhido conjuntamente com a equipa médica. Se a mulher precisar de apoio psicológico/social ou aconselhamento ou ainda mais tempo de reflexão, este pode ser dado.
8- O aborto pode ser feito com medicamentos ou recorrendo a métodos cirúrgicos, sendo na grande maioria realizado sem necessidade de ficar internada. Na IVG medicamentosa há uma consulta para a primeira toma dos medicamentos, sendo a segunda toma normalmente feita 2 dias depois, em casa pela mulher. Nos casos cirúrgicos, a mulher vai ao bloco operatório fazer uma aspiração do conteúdo uterino sob anestesia, que demora apenas alguns minutos (5-20 minutos). Normalmente apenas fica no hospital uma manhã ou uma tarde.
9- No dia da IVG é marcada uma consulta de controle a realizar-se dentro de 2 semanas. Esta é fundamental para se confirmar se a IVG foi bem sucedida.
As complicações da IVG são raras se esta for feita nos locais de saúde adequados. A mulher pode voltar a ter relações sexuais quando se sentir preparada para isso, sendo que a fertilidade (capacidade da mulher voltar a engravidar) é retomada cerca de 10 dias depois da interrupção. É assim importante que a mulher tenha alta da consulta com um método contracetivo adequado e eficaz. Escolher um método para evitar a gravidez que melhor se adeque à mulher é um passo fundamental do processo de consulta pós-IVG.

É normal uma hemorragia vaginal mais abundante nos primeiros 3 dias após IVG, sendo que depois deste tempo irá torna-se cada vez menor. A perda de sangue dura ainda assim cerca de 10-14 dias, sendo que em alguns casos pode durar até 60 dias.
Após a IVG, a mulher deve estar especialmente atenta aos seguintes sinais de alarme para ir à urgência do hospital:
  • ·         Hemorragia muito forte
  • ·         Sensação de desmaio
  • ·         Febre alta e persistente
  • ·         Cólicas na barriga acompanhadas de dores violentas
  • ·         Episódios de diarreia persistentes após as primeiras 24 horas
  • ·         ​Desconforto emocional muito intenso e prolongado



Dra. Tânia Ascensão
Médica interna de Ginecologia Obstetrícia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra